• Origem do sobrenome Naghettini

Preâmbulo

Meu nome é Mauro da Cunha Naghettini. Sou natural de Conquista, uma pequena cidade, a alguns quilômetros de Uberaba, no Triângulo Mineiro. Nasci a 2 de outubro de 1954, filho de Odair Nilo Naghettini e Agostinha da Cunha Naghettini (sobrenome de solteira: Ferreira da Cunha). Este é um pequeno relato das informações que coletei a respeito da origem do sobrenome Naghettini e, principalmente, de parte da vida de Nicola Luigi Naghettini, meu bisavô paterno, que primeiramente portou esse sobrenome.

Até meados de 1993, a informação que detinha sobre a origem do sobrenome provinha de meu pai e se referia apenas ao nome da cidade natal de meu avô italiano, Luigi Antonio Naghettini (Gigeto), sem especificar a região da Itália. A cidade se chama Sarcedo. Depois de alguma pesquisa, verifiquei que Sarcedo é uma pequena cidade (comune), de pouco mais de 5.000 habitantes, localizada na região do Vêneto, no nordeste da Itália (https://pt.wikipedia.org/wiki/Sarcedo).

Figura 1 – Localização da região do Vêneto e da cidade de Sarcedo.

A Itália é administrativa e politicamente dividida em regiões (regioni), províncias (provincie) e municípios (comuni). O município (comune) de Sarcedo localiza-se na província de Vicenza, cuja capital provincial chama-se Vicenza, na região do Vêneto. A cidade um pouco maior, mais próxima a Sarcedo, chama-se Thiene, a 4,5 km de distância. Por sua vez, Thiene dista 34 km da capital da província, Vicenza. Em um trajeto típico, para visitação, chega-se a Vicenza por via ferroviária e prossegue-se até Thiene e Sarcedo, por rodovia. Há ônibus disponíveis para o trajeto entre Vicenza, Thiene e Sarcedo. Segue-se uma foto panorâmica da pequena cidade de Sarcedo.

Figura 2 – Vista panorâmica da cidade de Sarcedo, vendo-se, ao centro, a igreja Sant’Andrea Apostolo.

Minha busca pela origem do sobrenome Naghettini iniciou-se em 1993, quando tive a oportunidade de visitar a cidade de Sarcedo. Desde então, dadas as surpresas que apareceram durante minha visita a Sarcedo, a busca estendeu-se por vários anos. Este é um pequeno relato das minhas tentativas de esclarecer certas inconsistências e fatos inesperados que afloraram durante minha pesquisa. O relato é organizado em forma cronológica, para maior clareza.

Visita a Sarcedo

Visitei a cidade de Sarcedo no dia 20 de junho de 1993, num domingo ensolarado de verão. Naquele momento, imaginava que, ao mencionar o sobrenome Naghettini a alguma pessoa daquela pequena cidade, essa pessoa iria me indicar a casa de um parente local. Fiz isso e, para minha surpresa, ninguém que consultei conhecia moradores que portassem meu sobrenome. Como era domingo, fui até a igreja Sant’Andrea Apostolo, de onde saíam muitas pessoas, provavelmente depois de terem assistido à missa dominical, e decidi abordar o pároco acerca do assunto que ali me trouxera. Ele me escutou atentamente e, também ele, confirmou que não conhecia nenhum habitante de Sarcedo de sobrenome Naghettini.

Frustrado, pensei que meu pai poderia ter-se enganado sobre o nome da cidade de origem da família. Já me encaminhava para a praça, próxima à igreja, de onde saía o ônibus para voltar a Thiene, quando me deparei com um pequeno bar, onde se reuniam cerca de 8 senhores idosos, em torno de uma mesa, a beber suas taças de vinho. Perguntar-lhes sobre meu sobrenome me pareceu que seria mais uma tentativa possível. Eles me receberam, me escutaram com atenção e também disseram não conhecer meu sobrenome. Um desses senhores, de nome Francesco Bonollo, funcionário aposentado da prefeitura da cidade, disse ter trabalhado no serviço de registro civil da administração municipal (Ufficio dello Stato Civile del Comune di Sarcedo) e que se disporia a fazer uma verificação posterior. Deixei meu endereço com ele, na esperança de que ele pudesse encontrar algum registro pertinente e relevante.

Passado algum tempo, o senhor Bonollo me enviou uma carta (Figura 3), na qual relatava ter encontrado a certidão de nascimento e o certificado de batismo de meu avô Luigi Antonio Naghettini (Gigeto), ocorridos em Sarcedo, em 17/05/1897 e 21/05/1897, respectivamente. A certidão de nascimento (estratto de riassunto per atto di nascita) encontra-se reproduzida na Figura

Naquele momento, uma grande dúvida se dissipou, qual seja, a de que a informação que tinha, a respeito da cidade de origem de meu avô, estava ou não correta. No entanto, nenhuma informação acerca de sua paternidade fora fornecida pela certidão de nascimento. Além disso, uma pergunta importante dali emergiu: como era possível não haver ninguém, em Sarcedo, com o mesmo sobrenome meu? É uma pequena cidade de pouco mais de 5.000 habitantes e me parecia improvável que eu não tivesse nenhum parente por lá. Teriam todos emigrado? Teriam todos sido vítimas de guerras ou doenças? Afinal, na segunda metade do século 19, a região do Vêneto havia sido submetida a invasões e dominações sucessivas, francesa e austríaca, nomeadamente, com sérias consequências econômicas e sociais para seus habitantes. Grande parte dos imigrantes italianos que vieram para o Brasil, e também para a Argentina, provinha do Vêneto. Esse verdadeiro êxodo da população vêneta ocorreu, principalmente, entre 1890 e 1910.

Figura 3 – Carta do senhor Francesco Bonollo, de 02/07/1993.
Figura 4 – Certidão de nascimento de Luigi Antonio Naghettini (Gigeto)

Mantive correspondência com o senhor Bonollo durante algum tempo. Graças à sua boa vontade e, porque não dizer, à sua própria curiosidade, ele permaneceu investigando o assunto. Como ex-funcionário, ele tinha acesso aos serviços de registro civil da prefeitura local e pôdelevantar informações muito relevantes sobre a origem da família. Ao fim de alguns meses de pesquisa, ele elaborou uma espécie de árvore genealógica da família Naghettini, a qual está apresentada na Figura 5. Vê-se ali que o patriarca da família se chamava Nicola Luigi Naghettini, nascido, segundo aqueles registros, em 31/10/1854, em local desconhecido e de pais ignorados. Casou-se em 14/02/1878 (como se verá a seguir, a data correta é 23/04/1878) com Appolonia Margherita Gallio, nascida em 10/04/1858, em Sarcedo, de paternidade conhecida. Dos registros civis da prefeitura, o senhor Bonollo compilou que tiveram 6 filhos nascidos em Sarcedo: Catterina,
Domenico (natimorto), Domenico, Francesco Domenico (Mene), Giuseppe Antonio (Bepe) e Luigi Antonio (Gigeto). Constam também as respectivas datas de nascimento. Todos, à exceção de Domenico, emigraram posteriormente para o Brasil. Suponho que Domenico tenha falecido antes da família emigrar para o Brasil; a emigração de toda a família ocorreu, como se verá a seguir neste
texto, em 1899.

Figura 5 – Árvore genealógica da família de Nicola Luigi Naghettini e Appollonia Gallio, tal como elaborada por Francesco Bonollo, em 1993.

Na Figura 5, vê-se que na coluna referente à paternidade de Nicola Luigi Naghettini, está escrito “del pio luogo”, o que, literalmente traduzido, significa “do lugar piedoso”. Por mim questionado sobre o termo empregado, o senhor Bonollo me explicou que, na Itália do século 19 era relativamente comum a mãe de uma criança recém-nascida, por razões diversas, abandonar o filho ou a filha em uma igreja, para que pudesse ser enviada a um abrigo. As razões para tais atos podiam ser várias: incapacidade financeira ou insuficiência de meios para criar a criança, violência sexual, relacionamentos ilícitos, gravidez precoce ou indesejada, entre outras. A criança era, então, abandonada, com 2 ou 3 dias de vida, em um canto de uma igreja ou, de forma mais velada e anônima, depositada em um vão com uma portinhola que se abria para os lados interno e externo da casa paroquial. Na sequência, os padres recolhiam a criança e a encaminhavam a um abrigo ou a uma casa de assistência a menores abandonados, para que pudesse ser alimentada e acolhida. Esse mecanismo da portinhola foi muito usado na Itália daquela época e recebeu o nome de “ruota”, o que se traduz como “roda”; maiores detalhes podem ser encontrados em https://it.wikipedia.org/wiki/Ruota_degli_esposti. Em qualquer dos casos, “pio luogo” se refere à igreja e às correspondentes ações piedosas e de assistência social dos párocos locais.

Mantive uma correspondência esparsa com o senhor Bonollo até o ano 2000, aproximadamente. Nessas cartas, ele relatou ser amigo de Giovanni Gallio, morador da cidade vizinha de Thiene e, certamente, parente distante de Appollonia Margherita Gallio, esposa de Nicola Luigi Naghettini. Fiz contato com o senhor Giovanni Gallio, àquela época com seus 85 anos ou mais, que se mostrou muito receptivo e cordial. Ele dizia ser neto de Giovanni Gallio (Senior), apelidado de Nani, irmão de Appollonia, e filho de Angelo Gallio. As fotos dos três estão reproduzidas na Figura 6, conforme o que me enviou o senhor Giovanni Gallio.

Figura 6 – Giovanni Gallio (3), seu pai (2) e seu avô (1).

O senhor Giovanni Gallio afirmava que tinha conhecimento da existência de Nicola Luigi Naghettini, por meio de relatos de seu pai e avô, e também sabia que a família Naghettini havia emigrado para o Brasil, em fins do século 19. Sabia que Nicola era marceneiro em Sarcedo e que havia casado com a irmã de seu avô, em 1878. Sabia também que Nicola e Appollonia moravam em uma casa na Contrà Chiesa (Rua da Igreja, em dialeto vêneto), onde também funcionava uma “osteria” (espécie de taberna); essa casa foi demolida, posteriormente à emigração da família em 1899. O senhor Giovanni Gallio não sabia precisar muito sobre as origens de Nicola. Mantive correspondência com ele até 2007, quando não mais respondia às minhas cartas. Suponho que tenha falecido por volta de 2007 ou 2008.

Canais oficiais

Dadas as dificuldades em prosseguir a investigação sobre a origem da família, junto à prefeitura de Sarcedo e a pessoas que poderiam fornecer informações adicionais, decidi recorrer a canais oficiais do governo da República Italiana e da administração da província de Vicenza. Fiz relatos escritos e os enviei a diversos ministérios do governo italiano, forças armadas e órgãos públicos da província. O que resultou positivo foi o contato que fiz com o Ministero per i Beni e le Attività Culturali (Ministério de Bens e Atividades Culturais da República Italiana). Esse ministério coordena as atividades dos chamados Archivi di Stato (Arquivos Estatais), os quais conservam
documentos antigos das administrações públicas central e periféricas, antes e depois da unificação da Itália (ocorrida em 1866), bem como de registros notariais das províncias, estes com pelo menos 100 anos de existência. Esses arquivos estatais têm sedes regionais em 101 localidades na Itália. O ministério designou o Archivio di Stato di Vicenza para intermediar as ações referentes à minha demanda por maiores informações sobre Nicola Luigi Naghettini.

Com efeito, em fins de 2003, recebi uma carta oficial do Archivio di Stato di Vicenza, a qual considero chave para o esclarecimento das questões por mim levantadas. Essa carta, com anexos, foi escrita em 27/10/2003 e está assinada pela senhora Maria Luigia de Gregorio, arquivista estatal. Ela está reproduzida na Figura 7 e traduzida a seguir:

No ano de 1807, a casa de acolhimento de crianças abandonadas que existia em Vicenza, desde a metade do século 14, foi transferida da sede da rua San Marcello (em pleno centro histórico, atrás da via Palladio) para a de San Rocco, mais periférica (ainda dentro da cerca murária da cidade). Ali, precisamente, em San Rocco, havia um convento de irmãs carmelitanas, as quais, por força das leis napoleônicas, tiveram que abandonar seu monastério [nota: período de dominação francesa do Vêneto 1797-1814]. O instituto de acolhimento de crianças abandonadas se transfere para San Rocco, com todo o pessoal laico e os pequenos hóspedes que eram então mantidos na casa. Aos neonatos acolhidos no instituto eram atribuídos sobrenomes de fantasia. Para cada ano, escolhia-se uma letra do alfabeto, com a qual se “construíam” sobrenomes. No ano de 1854, quase todos os sobrenomes das crianças acolhidas iniciam-se com a letra N. As crianças, caso conseguissem sobreviver, eram confiadas a algumas senhoras, externas ao instituto, as amas de leite, que proviam o aleitamento em troca de uma pequena compensação. Em geral, eram senhoras casadas de moralidade assegurada pelos párocos das diversas cidades associadas e que ainda poderiam continuar a ter a guarda da criança, criando-a e fazendo-a crescer. Enviamos-lhe a cópia da folha de registro de ingresso à casa de acolhimento, chamado de registro Ruota, com a transcrição “Guizzon Marco, de Bassano, guardião da casa filial de Bassano, traz um menino envolto em vestes de propriedade daquela casa, dizendo que foi batizado pelo capelão de Bassano”. À direita, assinalam-se os nomes da ama de leite, Testolin Maria, esposa de Francesco Scudella, de Calvene, com os quais permaneceu até 1867, quando cumpriu 13 anos de idade; e dos artesãos com os quais aprendeu um ofício, Castelli Giuseppe, marceneiro de Sarcedo, e Dal Santo Giovanni Battista, marceneiro de Calvene. E, com efeito, no ano de 1874, quando faz o alistamento para o serviço militar (reg. n. 24, matr. n. 462), Nicola Luigi se declarava residente em Calvene e de profissão “marceneiro”. Não existem outros documentos. O certificado de batismo poderá ser solicitado à igreja de San Roco, em Vicenza, ou à igreja de Santa Maria in Colle, em Bassano.

Figura 7 – Carta do Archivio di Stato di Vicenza, de 27/10/2003.

A carta da senhora Maria Luigia de Gregorio contém informações que devem ser detalhadas e contextualizadas, para maior compreensão. A primeira refere-se à igreja San Rocco, a qual teve sua pedra fundamental lançada em 1485 e levou mais de 45 anos para ser terminada, conforme projeto do arquiteto renascentista Lorenzo da Bologna. É uma pequena igreja e localiza-se na Contrà Mure San Rocco 28, na parte oeste da cidade de Vicenza, não muito distante do centro histórico, mas ainda dentro de sua cerca murária. Seu interior tem obras de arte e pinturas de valor inestimável. De início, foi confiada à congregação Canonici Secolari di San Giorgio in Alga. Em 1486, a congregação dos Celestini a substituiu e ali permaneceu até 1668, quando as Carmelitane di Santa Teresa assumiram a direção da igreja e ali mantiveram seu monastério até serem desalojadas, em 1806, durante a dominação napoleônica. Maiores detalhes podem ser encontrados em https://it.wikipedia.org/wiki/Chiesa_di_San_Rocco_(Vicenza).

Figura 8 – Fotos da fachada da igreja de San Rocco e de sua porta de entrada (tomadas em 2011, durante viagem a Vicenza).

O período de dominação francesa, iniciou-se pela invasão do território da República de Veneza pelo exército napoleônico, em 1797, durou até 1814 e foi marcado pela espoliação de obras de arte da igreja de San Rocco e pelo desalojamento das irmãs carmelitanas de seu monastério. A igreja foi transformada em uma casa de assistência a crianças abandonadas, o chamado brefotrofio, em língua italiana, conduzida por pessoal laico. Depois da completa unificação italiana, em 1866, o brefotrofio foi ampliado com um anexo lateral, transformado em Ospizio per gli Infanti Abandonati e incorporado aos Istituti Provinciali per l’Assistenza all’Infanzia (IPAI); a essência dessa estrutura funcional permaneceu até 1958. Durante o século 19, na Itália e em outras partes da Europa, era prática comum o abandono, pelas mães, de neonatos ilegítimos, indesejados ou provenientes de famílias miseráveis, na chamada ruota, uma estrutura de madeira, com portinholas entre as paredes externa e interna de uma igreja. Essa estrutura também estava presente na igreja de San Rocco e, como se pode ver na Figura 9, continua a ser visível, mesmo que preservada por uma superfície deacrílico transparente.

Figura 9 – Fotos da ruota da igreja San Rocco e do pátio interno de seu anexo lateral (Ospizio per gli Infanti Abandonati), onde as crianças abandonadas eram acolhidas e criadas. (tomadas em 2011, durante viagem a Vicenza).

A segunda informação importante da carta da senhora Maria Luigia de Gregorio, que merece contextualização, são as localidades a que faz referência. Nesse sentido, achei relevante aqui incluir um mapa de parte da região do Vêneto, com a localização das cidades mencionadas seja na carta, ou em seus anexos (a serem vistos a seguir) ou neste texto, a saber, Vicenza, Sarcedo, Thiene, Bassano del Grappa, Caltrano e Calvene. Esse mapa está apresentado na Figura 10. São cidades próximas e muito pequenas, à exceção de Vicenza e Bassano del Grappa, cujas populações atuais aproximam-se de 114.000 e 44.000 habitantes, respectivamente. Vicenza é a capital e centro econômico da província homônima. É uma cidade muito bonita e que abriga grande parte das obras do famoso arquiteto Andrea Palladio, vêneto da cidade de Pádua, (https://it.wikipedia.org/wiki/Vicenza). Já Bassano del Grappa, situa-se a nordeste de Vicenza, às margens do rio Brenta, cuja nascente se localiza nos Alpes, na fronteira com a Áustria. É também uma bela cidade e tem como uma de suas principais atrações a Ponte degli Alpini, sobre o rio Brenta, originalmente concebida por Andrea Palladio, e símbolo de resistência a diversas invasões estrangeiras e à opressão nazista durante a segunda guerra mundial (https://it.wikipedia.org/wiki/Bassano_del_Grappa).

Figura 10 – Mapa de parte do Vêneto, com as localizações relativas de Vicenza, Sarcedo, Thiene, Calvene, Caltrano e Bassano del Grappa (ver mapa completo).

Um dos anexos da carta da senhora Maria Luigia Gregorio é a cópia do registro Ruota número 168, reproduzido na Figura 11. É um texto manuscrito e algumas passagens não são facilmente legíveis ou estão ilegíveis. Refere-se à transferência de Nicola Luigi Naghettini da casa de assistência filial de Bassano del Grappa para o brefotrofio da igreja de San Rocco, em Vicenza. É datado de 31 de outubro de 1854 e a transcrição do texto manuscrito, a menos de algumas palavras ilegíveis, é a seguinte: “Guizzon Marco [segue palavra ilegível, mas interpretada como ‘guardião ou custode’], guardião de Bassano, em torno das 10 horas e 50 minutos, introduz pela porta do campanário [segue palavra ilegível] um menino, envolto em vestes, que foram restituídas, porque eram de propriedade daquela casa filial, e acompanhado de memória daquele custode, indicando que foi acolhido naquele asilo, no dia 29 do corrente, de fé do capelão [de Bassano], que declara têlo batizado com o nome de Luigi Giuli”. Essa transcrição revela que Nicola Luigi Naghettini nasceu no dia 29/10/1854, em Bassano del Grappa, e, conforme será detalhado a seguir neste texto, foi deixado por sua mãe (ou, talvez, por outra pessoa) no “pio luogo” da igreja local, a saber, a de Santa Maria in Colle, e batizado pelo capelão Celestino Bernardoni, com o nome provisório de Luigi
Giuli. Observe-se aqui que esse sobrenome provisório Giuli nada mais é do que um anagrama (combinação de sílabas ou letras trocadas de posição) de Luigi. No dia 31 de outubro de 1854, foi transferido para o brefotrofio da igreja San Rocco, onde recebeu o nome definitivo de Nicola Luigi Naghettini, conforme as explicações de escolha de sobrenomes contidas na correspondência da senhora Maria Luigia de Gregorio. Com respeito às práticas de escolha de sobrenomes de crianças abandonadas, correntes na Itália dos séculos 19 e anteriores, maiores detalhes podem ser encontrados no texto https://www.familysearch.org/pt/wiki/It%C3%A1lia_-_Menor_Abandonado.

Figura 11 – Cópia do registro Ruota de número 168, de 31 de outubro de 1854.

Nas colunas seguintes do registro Ruota, constam informações sobre a família que adotou Nicola Luigi e a progressão de sua vida como aprendiz de marceneiro (falegname). Mais precisamente, no dia 8 de novembro de 1854, portanto, aos 10 dias de vida, foi adotado pela senhora Maria Testolin, esposa de Francesco Scudella, residentes em Calvene. Na última coluna, há um texto, parcialmente ilegível, que menciona a morte da senhora Testolin, em 10 de abril de 1867, o que indica que Nicola Luigi pode ter permanecido com a família adotante, pelo menos, por 13 anos. Em 27 de fevereiro de 1869, aos 14 anos de idade, há o registro que Nicola Luigi estava sob os cuidados do marceneiro Giuseppe Castello, de Sarcedo, provavelmente como aprendiz do ofício. Em seguida, há o último registro, de 1 de abril de 1870, segundo o qual, Nicola Luigi, aos 15 anos de idade, teve os cuidados, de seu aprendizado profissional, passados de Giovanni Battista Dal
Santo, marceneiro de Caltrano, a Nicolò Pellegrini, de Calvene. Recentemente, tentei fazer contato com descendentes das famílias envolvidas, Testolin, Scudella, Castello, Dal Santo e Pellegrini, mas, não obtive sucesso.

Figura 12 – Folha de alistamento militar de Nicola Luigi Naghettini.

Os outros anexos da carta da senhora Maria Luigia de Gregorio dizem respeito ao alistamento de Nicola Luigi no serviço militar e à sua posterior convocação às armas, junto ao Sexto Regimento Alpino do Exército Italiano. Esses documentos estão mostrados nas Figuras 12 e 13. A folha de alistamento militar (Figura 12) atesta que Nicola Luigi se alistou no dia 18 de novembro de 1874, aos 20 anos de idade, no quartel que servia às cidades de Thiene e Calvene. Observe-se que o sobrenome usado no alistamento é escrito como “Naghettin”; em consulta ao senhor Giovanni Gallio, ele me disse que essa alteração de escrita é comum no dialeto vêneto, no qual suprime-se a letra “i”, empregada para se fazer o plural, na língua oficial italiana. Constam da folha de alistamento que Nicola Luigi estava domiciliado em Calvene, à época do registro, a data e o local de seu nascimento, ambos incorretos, além de dados de suas características físicas: estatura: 1,66 m, cabelos: pretos, sobrancelhas: pretas, olhos: castanhos, fronte: baixa, nariz: longo, boca: grande, queixo: redondo, rosto: redondo e tez: morena. À época do alistamento, Nicola Luigi Naghettini declarou que sua religião era a católica e que sua profissão era a de marceneiro. O item de “instrução literária”, provavelmente se referindo à alfabetização, encontra-se em branco. Conforme a folha de matrícula militar, reproduzida na Figura 13, Nicola Luigi foi convocado a servir o Exército Italiano e apresentou-se no quartel de Vicenza, em 15/05/1876, aos 22 anos de idade, tendo-lhe sido atribuída a matrícula 632 do Sexto Regimento Alpino. No dia 28/06/1876, foi mandado em licença ilimitada, em conjunto com sua classe de alistamento. Em 28/09/1889 foi novamente convocado, mas não se apresentou e foi dispensado; a justificativa para a dispensa, incorreta, diga-se de passagem, era a de que se encontrava no exterior. A emigração de Nicola e família para o Brasil ocorreria apenas em 1899. Finalmente, em 31/11/1895, foi liberado definitivamente do serviço militar.

Figura 13 – Folha de matrícula militar (632) de Nicola Luigi Naghettini.

Na sequência, segui as recomendações contidas na carta da senhora Maria Luigia de Gregorio e entrei em contato com as igrejas de San Rocco, em Vicenza, e de Santa Maria in Colle, em Bassano, em busca dos certificados de batismo de Nicola Luigi. As informações não vieram a acrescentar muito àquelas já fornecidas pela correspondência enviada pela senhora Maria Luigia de Gregorio. O certificado de batismo de Luigi Giuli, nome provisório de Nicola Luigi Naghettini, emitido pela Paróquia de Santa Maria in Colle, de Bassano del Grappa, está apresentado na Figura 14. O certificado confirma a data de nascimento em 29/10/1854 e o local como Bassano del Grappa.

Figura 14 – Certificado de batismo de Nicola Luigi Naghettini (Luigi Giuli).

Até agora, neste texto, há a informação de que Nicola Luigi estava domiciliado em Calvene, à época de seu alistamento militar (1874), aos 20 anos, de que esteve presente em Vicenza, quando foi convocado pelo Sexto Regimento Alpino (1876), aos 22 anos, e de que se casou em Sarcedo, em 1878, aos 24 anos, com Appolonia Margherita Gallio. A certidão de casamento, emitida pelo Ufficio dello Stato Civile del Comune di Sarcedo, reproduzida na Figura 15, oficializa a data da união matrimonial em 23/04/1878. Em minha interpretação, Nicola Luigi se estabeleceu como marceneiro em Sarcedo, entre os seus 22 e 24 anos de idade, quando se enamorou de Appollonia Margherita Gallio, quatro anos mais nova, nascida e residente naquela cidade. Depois de casados, conforme pontuado pelo senhor Giovanni Gallio, foram morar em uma casa na Contrà Chiesa, portanto, próxima à igreja Sant’Andrea Apostolo. Nicola e Appollonia tiveram 6 filhos em território italiano e mais um no Brasil. Os filhos italianos, com suas respectivas datas de nascimento, entre parênteses, são: Catterina Maria (19/05/1883), Domenico (29/08/1885, natimorto), Domenico (03/11,1889), Francesco Domenico (12/01/1892), Giuseppe Antonio (02/09/1894) e Luigi Antonio (17/05/1897). Depois de chegarem ao Brasil, tiveram mais um filho, Antonio, cuja data de nascimento não pude precisar. Ainda na Itália, adotaram um menino, de nome Angelo, que passou a portar o sobrenome Naghettini e que acompanhou a família, quando vieram para o Brasil. Dos filhos italianos, Domenico não emigrou para o Brasil. Não tenho outras informações definitivas sobre tal fato, mas suponho que Domenico tenha falecido quando criança, antes da emigração da família para o Brasil. Na correspondência com o senhor Giovanni Gallio, pude depreender a extrema penúria em que vivia a população vêneta daquela época: poucas oportunidades de trabalho, escassez de alimentos e até fome, em um território recém-submetido a invasões estrangeiras e recém-unificado à Itália. A incorporação do Vêneto à Itália se de deu apenas em 1866. Acrescente-se a isso a ocorrência de secas e enchentes que assolaram aquela região da Itália, na segunda metade do século 19. A emigração de parcela importante da população vêneta para outros países parecia natural. Grande parte dessa emigração ocorreu entre 1890 e 1910, e teve como destinos principais a Argentina e o Brasil. Em particular, a abolição da escravatura no Brasil (1888) e a expansão da lavoura cafeeira impulsionaram a importação de mão de obra estrangeira. O governo do Estado de São Paulo incentivava a vinda de imigrantes italianos para o trabalho nas lavouras de café da região da Mogiana, subsidiando suas viagens marítimas de vinda para o porto de Santos, recebendo-os na chamada Hospedaria dos Imigrantes, na cidade de São Paulo. Daí, seguiam, de trem, para as localidades próximas às fazendas, onde deveriam trabalhar.

Figura 15 – Certidão de casamento de Nicola Luigi Naghettini e Appollonia (Apollonia) Margherita Gallio, ocorrido em 23/04/1878, em Sarcedo.

A emigração e os primeiros anos no Brasil

Tendo em vista as dificuldades já mencionadas, em 1899, Nicola e Appollonia, acompanhados dos cinco filhos, decidiram deixar a Itália e emigrar para o Brasil. Ele já contava com 44 anos, ela com 40 anos e os filhos tinham idades variando de 2 a 16 anos, à época. Embarcaram no navio Minas, no porto de Gênova, no dia 18/07/1899. Era um navio a vapor, pertencente à empresa Ligure Brasiliana, que fazia o transporte de imigrantes para o Brasil. Podia transportar 90 passageiros em primeira classe e 900 em terceira classe. Em 1917, um fato lamentável ocorreu com esse navio, quando foi requisitado pelas forças armadas italianas para fazer transporte de tropas, durante a primeira guerra mundial: a embarcação foi afundada por um submarino alemão, provocando, segundo algumas fontes, 870 mortes, entre militares italianos, franceses e sérvios [https://it.wikipedia.org/wiki/Minas_(piroscafo)].

Figura 16 – Navio a vapor Minas que serviu de transporte da família Naghettini para o Brasil.

O desembarque da família Naghettini no porto de Santos ocorreu 24 dias depois da partida, em 10/08/1899, conforme a certidão de desembarque expedida pelo Museu da Imigração do Governo do Estado de São Paulo, reproduzida na Figura 17. Essa certidão foi solicitada em nome do filho de Nicola, Luigi Antonio Naghettini (Gigeto), mas lista todos os membros da família que desembarcaram em Santos: Nicola Luigi, Appolonia, Catterina, Francesco Domenico, Giuseppe Antonio, Angelo (rigorosamente, a palavra “esposto”, em italiano, significa “menor abandonado”; no presente contexto, poderia ser traduzida como “adotivo”) e Luigi Antonio.

Figura 17 – Certidão de desembarque de Luigi Naghettini e família, em Santos.

Pelo que consta da certidão de desembarque, o destino da família Naghettini era a cidade de Santa Rita do Passa Quatro, no estado de São Paulo. Mais especificamente, o destino era a Fazenda Santa Albertina de propriedade do senhor Sancho Berenguer. Pelas apurações que fiz, na Internet e em jornais santaricenses, as quais não cabem aqui detalhar por não fazerem parte do escopo deste texto, o senhor Sancho Berenguer, baiano de nascimento, comprou a Fazenda Santa Albertina e passou a produzir café, na década de 1880. Empregava métodos novos em sua propriedade e era figura respeitada pela sociedade santaricense e pelo setor cafeeiro. A crise de superprodução, as seguidas baixas na cotação internacional do café e o endividamento bancário levaram o senhor Berenguer a vender sua fazenda e se mudar para a cidade do Rio de Janeiro. Acredito que esses acontecimentos coincidiram com a chegada da família Naghettini, ao porto de Santos, ou a antecederam por pouco tempo. O fato é que Nicola e sua família tiveram que tomar novos rumos a partir de então. Por orientação de outros imigrantes italianos ou mesmo de autoridades do governo paulista, tendo em vista a possibilidade de expansão da lavoura cafeeira pela região da Mogiana, no estado de São Paulo, e até pelo Triângulo Mineiro, Nicola e sua família seguiram viagem e foram se fixar em Conquista, Minas Gerais.

Em Conquista, o trabalho inicial de Nicola foi o de fixação de dormentes para a linha de ferro que estava sendo construída entre Sacramento e Uberaba. Aos poucos e à custa de muito esforço e economia, conseguiu estabelecer uma oficina de marcenaria em Conquista. Ensinou o ofício aos filhos homens, os quais conseguiram manter e expandir a oficina. Francesco Domenico (Mene), o filho mais velho, fazia o papel de administrador da oficina, Giuseppe (Bepe) fazia trabalhos de entalhe e Luigi (Gigeto) cuidava da produção. O filho adotivo, Angelo, se interessou mais pela fotografia e logo se mudou para Uberlândia, onde manteve um estúdio fotográfico por muitos anos. A filha Catterina casou-se com José Barbieri, de Conquista; não consegui maiores informações sobre ela e nem sobre Antonio (Tonin), filho nascido no Brasil nos primeiros anos do século 20. Em minhas buscas por informações adicionais sobre a vida de Nicola Luigi, após sua chegada em Conquista, nada encontrei. Acredito que ele deve ter falecido por volta de 1920, aos 65 ou 66 anos. Sua esposa, Appollonia, viveu até 1941 e faleceu em Conquista, aos 82 anos. O único registro fotográfico disponível de Nicola Luigi Naghettini me foi fornecido por Klauss Naghettini Borba, neto de Francesco Domenico (Mene), e está reproduzido na Figura 18, ao lado de uma foto
de Appolonia Margherita, já bastante idosa, sua esposa e companheira de vida.

Figura 18 – Fotos de Nicola Luigi Naghettini e Appolonia Margherita Gallio

A filha e os filhos de Nicola e Appolonia foram se casando, constituindo suas próprias famílias, cada qual com seus caminhos de vida particulares. A foto colorizada da Figura 19, tomada, originalmente em preto e branco, em torno de 1925, mostra três dos irmãos Naghettini, alguns já com suas respectivas famílias. De terno preto, à esquerda, sentado, está Luigi Antonio (Gigeto). Em pé, está Francesco Domenico (Mene); ao centro, sua esposa Alda Rotelli rodeada por seus filhos e filhas. À direita, agachado, de terno cinza, está Giuseppe Antonio (Bepe) e, a seu lado, sentada, está Camila Provasi Gonçalves, primeira esposa de Luigi Antonio. Outras pessoas, que também aparecem na foto, não consegui identificar.

Figura 19 – Foto dos irmãos Naghettini, tirada em torno de 1925.

Hoje, creio que somos cerca de uma centena de descendentes de Nicola Luigi Naghettini e Appolonia Margherita Gallio, espalhados pelos estados de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Rio de Janeiro. Temos profissões e ocupações diferentes, cada qual com sua família, filhos, netos e história de vida. Acredito que honramos a memória desse casal de guerreiros, Nicola e Appolonia, em sua busca por uma vida digna e de superação. Por fim, exemplifico minha afirmação com uma foto (Figura 20), também colorizada, originalmente tomada em preto e branco, em torno de 1958, da família de Luigi Antonio (Gigeto), com seus filhos e netos. São parte dos muitos descendentes de Nicola e Appolonia.

Figura 20 – Família de Gigeto, em 1958. Atrás, em pé, da esquerda para a direita: João Bragato (marido de Adair), Sebastião (marido de Geny), Geny (filha de Gigeto), Almira (segunda esposa de Gigeto), Gigeto, Nilo (filho de Gigeto), Álfio Valente (marido de Ginete), Ginete (filha de Gigeto) e seu filho Reginaldo, no colo. No meio, em pé, da esquerda para a direita, Ronaldo (filho de Adair),
Ieda (filha de Geny), Maria do Carmo, Suely e Maria das Graças (filhas de Gigeto e Almira). À frente, sentados, da esquerda para a direita: Adair (filha de Gigeto) e seu filho Ronan, no colo, Rejane (filha de Ginete), Leda (filha de Geny), Regina (filha de Ginete), Mauro (filho de Nilo),
Agostinha (esposa de Nilo) e seu filho Marcos, no colo.